Quatro crianças da zona rural vencem obstáculos na busca de se tornarem jornalista, juíza, médica e advogada no futuro
Canindé Para atingir seus objetivos educacionais, não precisa estudar em escolas particulares tampouco pagar mensalidades de grandes valores. É preciso apenas determinação, compromisso e força de vontade. Essas qualidades se fazem presentes na vida de quatro amigas que estudam em escolas públicas da zona rural de Canindé, Município encravado no Sertão do Ceará a 126 quilômetros da Capital.
Francisca Chalia Braga Sampaio,13, cursa o 8º ano na Escola Cecília Pinto na comunidade de Santana da Cal, no Distrito de Bonito, e sonha ser advogada. Segundo ela, quando terminar o ensino médio vai buscar junto às instituições educacionais do Estado apoio para começar a realização de seu sonho.
"Tenho muita fé que irei me formar e poder ajudar minha família que vive da agricultura. Sou uma aluna determinada e nunca faltei sequer um dia de aula, mesmo quando chove", orgulha-se, ressaltando que não é proibido sonhar.
Quem também não esconde a vontade de estudar é Francisca Chalany Santos Sampaio, 9, que cursa o 4º ano na Escola José Cabral de Araújo, na localidade de São Joaquim. Ela quer ser médica quando concluir os estudos. "Irei me formar. Essa é a única coisa que tenho certeza na minha vida. Recebo o apoio de minha família, parte importante para chegar ao meu ideal. Quando se sonha coisas boas nunca é tarde para ser feliz´´, diz.
Consciência
Ela se orgulha de ter as melhores notas da escola e, o que é mais importante, o carinho de todas as colegas. "A educação é a única coisa que os pais deixam de futuro para seus filhos. Isso eu tenho consciência que minha família tem feito por mim", diz a garota.
Francisca Kairis Silva Pereira,12, que faz o 8º ano na Escola Cecília Pinto, diz que o grande desejo dela é de ser juíza.
"Vou lutar muito para dar esse orgulho aos meus pais que são pessoas que vivem da roça, agricultura de subsistência. Comem o que produz. Ser pobre nunca foi nem será defeito de ninguém, por isso o meu sonho só Deus pode tirar de mim, mas tenho certeza que ele só irá me ajudar´´ fala, com os olhos brilhando. Maria Luiriane Braga Ferreira, 14, faz o 8º ano na Cecília Pinto e quer ser jornalista. "A vida de jornalista é bem agitada e é isso que eu gosto. Tenho muita admiração pela profissão dessas pessoas que levam a informação para dentro de nossas casas. Quem me conhece sabe do meu potencial e jamais irei desistir do meu maior sonho´´, salientou.
Segundo ela, ao terminar os estudos básicos, irá começar um curso preparatório para entrar na faculdade e pode concorrer a uma vaga nessa profissão que acha de grande importância para o crescimento do País.
Superação
As quatro estudantes carregam sonhos diferentes, mas um só destino: o caminho da escola. Elas realizam todos os dias o mesmo percurso para alcançarem ideais diferentes. O trajeto feito para chegar até o ônibus escolar é de 1 km. O veículo não consegue chegar a todos os lugares. Para elas, pouco importa a distância, o que importa mesmo é a formação educacional que recebem dos educadores para um futuro cheio de ideias e sonhos.
A professora Mônica Molina, diretora do Centro Transdisciplinar do Centro de Educação da Universidade de Brasília, escreveu artigo na revista "Nova Escola", edição de dezembro de 2012, sobre a realidade na escola no sertão do País. Para ela, a educação do Interior é muito mais do que uma proposta pedagógica. A especialista diz que a modalidade tem de contemplar a aprendizagem de saberes universais e sobre o local onde vivem os alunos. Assim, eles têm condições de escolher se permanecem ou não na zona rural.
Distância encurtada
ROTINA DIÁRIA PARA CHEGAR À ESCOLA
Caminho é cheio de obstáculos
Moradoras da localidade de Santana da Cal, zona rural de Canindé, as quatro crianças Francisca Chalia, Francisca Chalany, Francisca Kairis e Maria Luiriane, deixam os seus lares todos os dias para enfrentar um caminho cheio de obstáculos até chegarem ao ponto de parada do ônibus escolar.
Fotos: Antônio Carlos Alves
Elas passam por dentro da vegetação local, superando, inclusive cercas e outros obstáculos.
A força de vontade das meninas em querer aprender e ajudar suas famílias é o combustível delas na empreitada no intuito de entrar na faculdade e concluir um curso superior.
História sensibiliza moradores
Familiares, vizinhos, professores e até o próprio prefeito de Canindé, Celso Crisóstomo, ficaram tocados com a história de superação das quatro crianças estudiosas da localidade de Santana da Cal, no Distrito de Bonito, no município de Canindé
A força de vontade das crianças de Santana da Cal, no Polo 15, no Distrito de Bonito, mexe com todas as pessoas que conhecem a história. É o caso da professora Goretti Justino. Ela acredita que o fato principal que determina o bom estudo é a vontade de querer aprender e saber mais, sem essa vontade, não se chegará a lugar nenhum, e, para que isso aconteça, deve-se saber aonde quer chegar, com objetivos definidos.
Para a educadora, as quatro amigas se encaixam nesse perfil, pois preferem estudar na zona rural, tem vontade de aprender e já sabem o que querem mesmo antes de se formarem. Goretti lembra ainda que a autodisciplina ajuda o estudante, que deve treinar-se para ter domínio sobre a fantasia, imaginação, emoções e impulsos. Até o prefeito de Canindé, Celso Crisóstomo, conhecedor da história, também se comoveu com a história de vida das meninas que desejam ser médica, juíza, advogada e jornalista. Segundo ele, é um grande orgulho para o município ter alunos desse nível.
Projeto
Na opinião dele, "há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas. Escolas gaiolas prendem e escolas asas fazem voar". A partir dessa visão, a Secretaria de Educação de Canindé está desenvolvendo um projeto para revitalizar o ensino público do município. Conforme o gestor, que é educador, "quanto mais se amplia a qualidade da educação, mas se reduz a desigualdade. É disso que Canindé precisa, é isso que o Canindé está fazendo´´, salientou o prefeito.
As escolas da sede e zona rural estão passando por um processo de melhorias, onde a grande finalidade é fazer com que os estudantes possam se sentir a vontade. Salas de informáticas, bibliotecas, energia elétrica, água tratada, já fazem parte do novo modelo de educação de Canindé. "Sabemos que a educação precisa de mais, e isso estamos buscando todos os dias ao lado do secretário de Educação Marcelo Bezerra ajustar essa linha de atuação junto aos nossos jovens que carregam sonhos memoráveis´´, observa.
Ensino público
Na visão do prefeito, é preciso fortalecer a escola pública como uma grande referência para a formação profissional.
"A escola pública brasileira será de fato pública e democrática quando for para todos, não só para os pobres. E ela será para todos à medida que ganhar mais qualidade. Quando pessoas diferentes convivem no mesmo espaço fortalecemos a escola, o aluno e a educação", afirmou.
ANTÔNIO CARLOS ALVES


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